Vivi a minha infância a crescer enquanto balançava de dente para dente, com os gigantes. Foi por estar sempre pendurado que os meus braços cresceram. Foi por ter crescido com os maiores que ainda hoje me chamam pequeno. Senti o chão quente da selva e bebi a água lamacenta em que nós brincávamos. Não faz só bem à pele deles. Já partimos dentes juntos e já dormi no colo deles porque eles queriam dormir no meu mas não cabiam. Competíamos para ver quem gritava mais alto. Aí, tornávamo-nos os reis da selva. Sentiamo-nos os reis do Mundo. E as mães olhavam para nós, indignadas e com calor, duvidando da minha influência sobre eles. Eles é que tiveram influência sobre mim. Éramos pequenos. Quando nos conhecemos, eu só de cuecas, criança pançuda com um gelado de água na mão, eu ainda era maior que eles. Lembro-me bem de uma certa altura em que éramos todos da mesma altura. Hoje, são todos maiores que eu. Talvez sejam até maiores que o amor que eu sinto por eles.
Repara-lhes na cara. Na maneira lenta e cansada de andar. São infinitos. Não só pelo tamanho, pela paciência que se lhes reflecte na cara, mostrando que têm a idade da Terra. São do tempo do Mundo. São monstros sensíveis, toneladas que distinguem as pedras em que pisam dos grãos de palma perdidos pelos comerciantes que têm medo de mim por não ter medo deles. Se calhar, somos mesmo o gang que pensávamos ser quando éramos crianças. Dormimos juntos, eu no colo deles, o mais novo zanga-se porque não entende que não consigo aguentar a tromba dele no meu colo. Tornei-me dentista-dos-lençóis, ao brincar-lhes com os dentes todas as noites. Tornei-me viajante ao ler-lhes o mapa rugoso que lhes ocupa toda a pele. Tornei-me no menino em que eles jorram água da tromba quando querem que tome banho.
20 setembro 2012
19 setembro 2012
Se o Arrakis tivesse uma piscina, seria assim.
Desculpa, mas tive de arranjar uma em que coubessem pelo menos um quarto dos beach boys que pões no teu blog. Sem eles, não seria a mesma coisa. ;)
16 setembro 2012
Tango for two
Ontem ouvi-te dançar.
A tua expressão corporal disse-me para avançar e cair sobre o teu suor. Mas não foi bem assim: primeiro levantaste a cortina transparente para o show ser ao vivo. Depois, o que diferencia tudo é que fui eu que pedi. Fui eu que te pedi os sorrisos, os abraços à minha volta, até mesmo a tua maneira de me olhares. A t-shirt branca, molhada e misteriosa. Inquietante.
Não digas que eu te falo em poesia porque poesia não foi feita para ti. Foi feita a dança, um tango gingado que nos enche a sala mesmo quando não estamos em casa. Que nos enche o rio, se por lá fizermos amor.
15 setembro 2012
11 setembro 2012
Teen Age Since Ever
Não vais desperdiçar assim o ouro da tua vida. Afinal, tu és o meu irmãozinho adolescente. Tu tens o dia todo para explorares o mundo, quando abrires as tuas pálpebras viradas para a varanda do quarto, ao acordares. Talvez eu tire o dia de folga e fique a manhã toda a mostrar-te todos os desenhos animados, os livros e as músicas que há para ver. Almocemos em várias praias hoje e conheçamos todas as estradas do país.
Porque a vida é a única coisa a ser a única coisa que tu realmente possuis. É só isso que tens para ti. Isso tudo. E tu vais ter de ser tudo. Vais ter tudo para viver e compreender, para que, numa próxima manhã, quando deixares de ser vida, comeces a ser mundo.
Se tu quiseres ser um panda, então Fuck the world, you're a panda. Que a tua vida tenha música de fundo de uma banda sonora bem rica como a dos filmes e ainda vivas os melhores momentos da tua vida no timming perfeito: algumas em fast e outras em slow motion. Aprende o máximo antes de chorares e canta todas as músicas antigas que derem na rádio: isso vai fazer-te a estrela nas festas. Sorri para o céu, que os deuses aguardam-te.
30 agosto 2012
Menina dos Fósforos
Diz à menina das pupilas brancas que afinal o destino é redondo. Conta-lhe que a esquina do nosso prédio cheira a kiwi e confessa-lhe que o Universo é uma esfera invertida e virada do avesso que nós nunca iremos compreender porque não temos tal forma que o represente. Chora-lhe algumas histórias russas para que ela ganhe ossos fortes e brinda-lhe o estômago com a hortelã que plantaste comigo na varanda do meu quarto.
E pede-lhe o troco, que seja a lucidez num sorriso.
29 agosto 2012
Cartas de amor
Estavas bela, hoje. Não que sejas uma mulher bonita, mas via-se a qualquer intensidade da luz do dia que tinhas pensado meticulosamente no que irias vestir, hoje de manhã, antes de saíres de casa. Subiste, a pé, a cidade inteira só para me ver. A mim ou à minha fotografia. Foste lenta, demorada, num sofrimento propositado por todos os dias que não tiveste esse ramo de flores na mão.
Nunca me ofereceste um ramo de flores. Talvez nem tenhas sequer pensado, inocentemente, que eu gostasse de flores. Eu admirava-as, sabia as que eram a tua cara e as da mãe. Sabia qual era o cheiro que correspondia a qualquer uma de vocês e adivinhava sempre as que vocês não iriam gostar. Mas colhia-las, sempre que ia ao campo ver os cavalos, que tinham nomes dados por mim, e brincar sem ter que ver o mundo edificado. Eu gostava de flores para dar-tas. Eu gostava delas porque sabia que irias gostar de recebê-las quando eu chegasse a casa, das minhas brincadeiras de miúdo, e irias guardá-las num copo velho com água. Às vezes, num vazo pequeno. Suponho que isso acontecia quando as apanhava em grandes quantidades ou as tuas preferidas, que eu nunca cheguei a perguntar-te.
Hoje vieste tu dar-me flores. À minha nova casa, como de tantos outros. Trouxeste as tuas preferidas, as que eu arrancava mais vezes da terra para te entregar. Nunca me trouxeste flores enquanto estive vivo. Nunca me disseste que me amavas. E não preciso que mo digas como o fazes hoje, preciso apenas que o mostres, como sempre fizeste quando era pequeno. Quando era alguém. Mas eu prometo que esta nova casa vai estar cheia de flores nas janelas e nos canteiros, quando vieres aqui comigo morar.
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