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19 abril 2013

Amor Vincit Omnia


Estamos de luto. Vestimos as vestes pretas e fitamos as gotas em quantidades infinitas que atingem a erva molhada. O tempo é cinzento, e seria cinzento mesmo que hoje no mundo não houvesse cor. Sorrimos um nada imaginário onde as palavras, ao longo do texto, ao longo do último discurso, deixam perder o sentido e perdem-se no rumo e na vinda. Procuramos por alguém para possuir, a fim de encontrarmos vida.
É impossível fitar o morto. É impossível olhar para dentro. Perdemos a certeza de termos estômago, ganhamo-la quando a sentimos ser comida pela bílis. Quando conseguimos sentir. Hoje começa a festa da velha guarda. Onde os jardins serão regados a bons olhos, literalmente. Onde nos afogaremos dentro das nossas camas, tão vazias e tão imensas. O dilúvio irá destruir os sonhos que, nos últimos dias, nos temos lembrado de sonhar depois de acordar.
Hoje o ciclo comprova a sua veracidade. Perdemos de vista o futuro, não existem mais maquetes para projetar em cima das secretárias nem mapas nas paredes, furados por pioneses, por trilhar. Levantem as bandeiras. O tempo do dia de hoje não será regido pelas horas nem pelos sóis, nem pelas marés guiadas pela Lua. Hoje o negro instala-se.

21 setembro 2012

Nota grave


Vamos ter de nos sentar e jogar um jogo com cartas, dados, perguntas e consequências engraçadas. Iremos finalizar o jogo com um mau perdedor e um vencedor modesto. Vamos ter que ficar a dormir na casa do anfitrião porque jogámos até tarde. E ele vai ter de ter alguma Gazela no frigorífico para eu poder esquecer-me de que afinal, tu estás ali porque se não estivesses, poderias querer levar-me para a cama. 
Vamos ter de aprender a contar pelos dedos de uma mão quantos ficam, na verdade. Teremos de fechar os olhos, por vezes, para tentarmos não perceber que afinal, os teus amigos são teus amigos porque, se não fossem teus amigos, levariam-te para a cama. Eu não sei se eles seriam teus amigos se não fosses fixe. Imaginas o que é teres amigos fixes sem teres facebook? Eles talvez não imaginem. Eles talvez não imaginem  tu seres feio, não seres engraçado e não teres um riso que se destaque. Se o fizessem, talvez não fossem teus amigos. Talvez eles até criem expectativas sobre mim e sobre ti, talvez seja por essa razão que aprendemos a segurar num copo alto de cuba livre. Talvez seja daí que tenhamos aprendido a ter a mesma postura.


Um dia teremos de voltar a ser pobres. Teremos de passar fome e calor, que é bem pior que o frio, e tenhamos de juntar-nos em rodinha para chorarmos todos juntos, como um culto. Talvez precisemos de algum velho que nos fale da sua história de vida, sentado numa cadeira em frente de um bando de jovens sentados à chinês. Talvez seja preciso isso tudo. Porque muito raramente escrevo textos tristes - tu sabes que Asmodeu odeia tristeza - e hoje eu faço-o porque, sinceramente, falta-me o sentido de muita coisa. Não que eu o sinta e que me afecte grandemente a falta desse sentido ao qual chamamos de valores. Mas eu vejo. E ainda voto na visão como passe para a apoteose. 
Porque no fim, a vida é esse sumário comandado pelo desejo. A gula, a ganância, a âmbição, a cobiça, a luxúria. Hoje já mando vir com o Pai por ter criado tanta palavra para um pecado só. Talvez ele mesmo tenha quase sido comido pelos demónios. Talvez os anjos lhe tenham cobiçado. Talvez Deus seja tão sozinho por desgosto de ter sido só um amigo. Vamos, quero que venhas comigo falar com eles os dois para sabermos o que é que se passa aqui.