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22 setembro 2011

E vai um tinto teu por esta

Eu apaixonei-me por tudo porque tu não querias ser o meu mundo. Tinhas medo, sempre tiveste. Eu intimidava-te, intimidado por ti. Nunca quiseste surpreender-me, provar que eras romântico, o melhor na cama, que fazias os impossíveis por mim e que não havia poeta como tu. Nada disso. Querias antes poder andar comigo na rua e sentires que caminhavas com um amigo, mais que tudo, e que se caísses ou tropeçasses, que não se me afligia o coração, mas sim que risse de ti, porque é o que os amigos fazem. Beijas-me a testa quando vais embora, fungas quando estás constrangido e aproveitas-te do meu colo para pores os teus pés quando te sentas no sofá. E bebemos sempre vinho na tua casa, porque tu gostas e não interessa se a mim tanto me faz.
E nem tens medo de mim quando te grito, levanto a mão e te beijo depois, te chamo de puta ordinária ou de otário. Porque depois fazemos amor e tu sabes que és o Álvaro. Nem eu tenho medo de perder a jornada que é a nossa relação, os teus papéis escritos nas paredes do quarto de poemas longos e alucinados - e tu sabes, porra, que eu odeio poesia -, nem os vinhos tintos, nem a tua grande personalidade. Nunca te perco, porque nunca te tive.
Eu apaixonei-me por tudo porque tu não querias ser o meu mundo. Nunca te achaste grande o suficiente para quereres sê-lo. Tens boa noção da merda que és, e que somos. Eu apaixonei-me porque só quiseste fazer parte dele, continuaste sempre a ser o Álvaro de Campos que conheci.