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12 janeiro 2012

Contraste


A minha profissão é tornar inocência em pecado. É ranger os dentes enquanto se sorri para a foto, calçar o teu olho embalado na sola do sapato. Convencer-te de que não vais ser feliz sem mim. E orientar e oferecer-te tudo, num acto de bondade e solidariedade disfarçantes do esquema precioso de manipulação e controlo. Fazer-te babar por algo que nunca vais ter. Fazer com que te mates por isso.
 A minha profissão é ser o pai que nunca te bateu porque nem isso vales: para descarregar a energia da fúria. Adorar-te como um deus e louvar o teu nome aos pobres, sabendo que são só os ricos que ouvem. Fazer com que sonhes comigo e te masturbes a pensar em mim no teu quarto de adolescente, e chorar em frente de ti ao dizer-te que não te mereço porque não sou nada. Oferecer-te um presente que seja ainda melhor do que aquilo que querias, feito por mim, que mandei o meu sobrinho fazer porque na verdade não tinha tempo. O meu tempo traduz-se em vontade e paciência.
 A minha missão é ser o mau da fita, abusar do teu sexo e depois cuspir-te na cara quando começares a pedir para casar comigo. Eu já casei com os deuses, todos juntos numa orgia de sete dias. Já não posso ser teu marido, pai, amigo. Posso até ser o teu prostituto, encostar o teu rabo ao lavatório molhado e consumir-te ali, mesmo ao lado da carne a grelhar no fogão. A minha missão é ser um deus teu, que à tua frente nunca pediu para o ser.

29 dezembro 2011

Empty Bones


Terá de se marcar consulta e agendar revolta no gabinete do Sr. Empanado. Trazer em malas de couro os livros de Platão e Dante para comprovar o prognóstico. Reclamar a independência do corpo e declarar fracasso à sobrecarga da exploração à mente.
Terá de se fazer culto à coragem e usar o elmo espartano de Aquiles combinado com as asas de Hermes e voarmos para caçar os monges que nos servem iguarias. Teremos de ser puros e feitos de fruta fresca, cantar futuros hinos de filmes que os de lá de baixo realizam e termos o poder de sermos vigilantes de Deus.

28 dezembro 2011

Sardónicas


É visível a beleza de uma pedra no meio de uma rua suja.
É gloriosa a sua intemporalidade. Por ser uma pedra.
Por mais que partida aos bocados , continuarão a ser pedras.
Por mais que limada, pedra há de ser.

Só reduzida a pó, pó fino que se confunda com o ar, deixará de o ser .

Poseidon


É das entradas nos anos 30, da barba mal feita porque o álcool não deixou. Os dedos fortes, registo de poucos anos nas obras e da masturbação ao ver posteres de putas.
A maneira como se cerra os dentes já num estado raivoso depois de um cigarro fumado, seguro entre o polegar e o indicador. Do cheiro a tabaco com perfume, do corpo outrora cultivado na distante adolescência, o ressonar à noite em cima do corpo adormecido de outrem.
Altera até o acender as velas, o vinho bebido enquanto se cozinha e o jogar à bola na praia para o cansaço permitir o adormecer ao peito do Sol.

04 novembro 2011

Asmodeu


Não entregues a tua arte ao sujeito. Porque assim que a arte se mistura com a sociedade, torna-se lixo. E tu não queres ser tu em vão. A não recomendar o uso descartável, o exibicionismo do nada imprimido por máquinas industriais, a confissão a um santo que não ouve. Iniciados os artesãos, os projectos do "Eu" e a fé em si próprio para o esforço ser crescente e contínuo.
Que comece o Inferno.