22 dezembro 2011

Some dreams get real





Hoje entrei no elevador e cheirou a terra.
  À terra que percorríamos quando eramos pequenos nómadas por cidades vizinhas, e curvavamo-nos à Lua carregando sacos maiores que nós às costas ainda crianças. Tínhamos medo dos elevadores e os vizinhos adolescentes ainda nos intimidavam mais que hoje. A simpatia ainda reinava todas as noites e a solidariedade também, que a ignorância disfarçada de inocência o permitia. Cheirava-nos a casa de gente rica e de paz, um cheiro doce mas dos que lembra Paris no Verão ou a baixa lisboeta no Inverno, sonhávamos com uma igual porque a nossa não cabia para tal tribo e  os carros não se comparavam à nossa carrinha. Comíamos tarde, já depois de trabalharmos, já com as costas doridas, já com os dedos esmagados.
  Se quando velho me esquecer, não interessa.
  As marcas continuam aqui na coluna.

21 dezembro 2011

Céus e manias


Seria estúpidez confundir a tua sensibilidade infantil ao Sol com um piscar-de-olho-sedução. Não era a mesma coisa.
Não tirariamos fotos a fazer o pino ao lado dos castelos de areia que construímos, que até três pisos e garagem têm. Nunca iria aprender a tocar bateria sem ti. Ou pelo menos a concentrar-me para poder sorrir enquanto toco.  Ou bater o pé quando te oiço a tocar merdinhas de músicas vindas dos teus sonhos.O melhor é quando evocas uma música para fazer de banda sonora das nossas vidas, embalada em suspiros e sorrisos que nem sempre se vê porque as velas do teu quarto só iluminam uma parede e as maquilhagens que inventamos para podermos rir do que não somos tapam-nos o semblante.
Vemo-nos no céu, espelhado pela piscina da tua quinta depois de deixar cair o pequeno-almoço pelo veu de lembranças a fim de serem alimentadas.

19 dezembro 2011

Olá, bom dia


É essa a maravilhosa tragédia da arte:
ausência do vício e a presença da escolha.
O fazer telas em série durante meses e depois parar só porque apetece, 
só porque já estamos vazios de querer imaginar aleatóriamente,
só porque não sou obrigado a pintar.
É parar o destino durante 3 anos porque decidi ler Drumond ou porque falta-me acabar a decoração do quarto. Ou porque mudei de país e lá os textos vão ser só para embalar os meus pequenos.
Poder intervalar porque não sou um economista que necessita de estar sempre a par da moeda inexistente ou porque sofro bullying do meu patrão.
É, sobretudo, poder.

15 dezembro 2011

Golden Faith

Tortura o mundo. Mói-lhes o cerebelo, cospe-lhes nas cataratas e arranja uma cangalha para o passeio. Simplifica os nomes fortes, para poderem ser bem perceptíveis quando começarmos a gritá-los na rua. Cruza a perna depois de te sentares no banco verde com merda de pombo. Pede perdão aos que morreram por ti.  Sorri aos que te erguem a cruz do não acontecido, aos que te olham por pareceres tão extraterrestre. Diz-lhes que vais raptá-los para outra galáxia, onde gente dessa é servida como sushi. Vende as roupas, que são diários de escravidão inocente e fecha as portas aos dogmáticos. Faz voodoo com a sociedade e alimenta os de lá expulsos. Ama o próximo e os que já foram, os que usaram o corpo como um corpo, os que sabiam-se apenas de matéria, os que juraram nunca jurar-te um átomo só. Tira a verdade do surrealismo e aperta-o contra o lobo frontal. Massaja o Ajna e unge os ricos, a ver se gostam. Sacrifica a vontade, um holocausto à Glória.
E esconde-te, que o Melhor nunca vem aos olhos do povo.

13 dezembro 2011

Voila



A inspiração torna-se absoluta, 
a culpa fica matuta, 
e começa-se a escrever.

12 dezembro 2011

Pinga amor

Hoje qe seja simples. Não se acordem as lâmpadas, que as velas são mais maternais. 
E não tenhamos medo do infinito: tomemos banho no escuro e baptizemos o templo.
Fechemos então a casa-de-banho à chave, enchamos a banheira de água quente e deitemo-nos nela, abraçados pelo conforto.

08 dezembro 2011

Chocalop


Criaste todo o teu poder?
Se o viste, não o arrancaste. Se o obtiveste não o apalpaste. se o tocaste não o vestiste. O linho é fino e ténue, sem comparação. Escassa e sensível, ai não toca ao coração. Criaste esperança mas amarraste-a como um cão a comer pano. Geraste reflexão mas não deste reflexão ao teu interior amo. Tinha-los a todos : os belos, as bebidas e até os gados. Com esta fraqueza irresistível, resumiu-se a fortaleza a nada.
Resumiu-se? Pois nem sequer evoluiu.
Criaste todo o teu poder.