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06 junho 2013

Vrum

Vamos para a noite. Cavaleiro de mota, prostrado em frente a minha casa. O motor do cavalo branco ronca nos meus ouvidos e desperta os vizinhos que vêm da janela. E seguimo-nos pelas mãos largas, desenhadas, posicionadas no ponto do desejo.
Andemos, que hoje somos cavaleiros. Irêmos por esse casaco grosso que nos enchumaça os ombros, pelo já quase esquecido sapato de vela e por toda essa coisa bem composta. Enfrentemos o vento, simulando-se ar puro. Sejamos da estrada desconhecida e forcemos o motor até avistarmos mar. E se não quisermos voltar, que seja então profecia.

22 agosto 2012

I'll be seeing you

Imagina uma sala Billie Holiday. Uma vida dentro dessa sala. Não dentro físicamente, mas que a vida dessa sala fosse Billie Holiday. Tocada num rádio imparável, velho mas sem pó, que sustentava a vida imensa da sala fracamente iluminada pelo Sol já quase posto, marcado em forma de quadrado no chão pela janela de cortinas recolhidas.
Foi aí que eu e tu nos casámos. Foi aí que descobrimos o tom quente do cadeirão iluminado pelo Sol, velho, com cheiro a charuto que repousa ainda quase completo, no cinzeiro. O fumo que dança presta homenagem ao que ainda não vivemos e tudo o resto é escuro na sala. Reconforta o negro, ao som da voz daquela preta mágica e profeta que nos casou. O negro tem o Tom e o Jerry que correm pela casa, para nos lembrarem que já fomos crianças mas que ainda não somos velhos. O negro da sala não deixa ver o papel de parede velho e fora de moda que assinou os papéis do nosso casamento.
E essa vida senta-se no cadeirão de chapéu, porque tem de condizer com o charuto, e tudo o que faz é olhar para o Sol já quase posto. Durante vidas, criadas por Billie. Felicitadas pelo negro do quarto que abraça calorosamente meu corpo, os sonhos. Os sorrisos lá passados, os aniversários e as noites de paixão. Noutras vidas. Hoje é dia de Verão e ouve-se o espírito da preta na sala escura cujo Sol se despede. E enquanto houver Sol, a vida desta sala será sempre Billie Holiday.

03 junho 2012

Lingus

Deixa-me que fale, para que te apaixones por mim. Deixa-me sorrir lenta e largamente para que te troque os sentidos. Mostrar-te os livros decorados, as inseguranças que tu consolas, os hábitos que talvez venhas a adquirir.
 Mostrar-te que sou teu não porque quero, mas porque estás comigo quando tenho de querer, ou não, algo. Deixa-me que fique do teu lado e partilhe contigo um sonho só. Confessar-te que a comida e cocarem-me as costas conquista-me. Pensar saber que não me conheces. A mim e aos outros que aqui escrevem.
 Deixa-me conhecer a tua cidade, para entrar no teu mundo.

29 maio 2012

Thumbs

Eu nunca tinha reparado nessas marcas brancas. Têm um ar limpo e fresco, eu já tinha percebido isso no meu irmão e só pensava em ter uma marca dessas. Quando desenhava e eu via  aquela mão por cima do papel, quando estalava os dedos ou me apertava a mão em cumprimento. Ele sempre teve umas mãos bonitas. E muitas marcas assim.
Ele tem umas marcas branquinhas nas unhas dos dedos que aparecem de vez em quando, que eu acho perfeitas. Nossas mãos nunca irão ser iguais. Mas eu sempre quis - e vou querer - umas mãos assim quando fosse grande como ele. Desenhadas, simétricas e com marcas brancas nas unhas que aparecem e desaparecem como nuvens.
 Hoje eu sou mais alto que ele. Ele está baixo e com as temporárias marquinhas nas unhas que habitam o  seu punho forte. Eu, continuo a vê-las passar.

22 janeiro 2012

Acção



Nós não tínhamos televisão em casa. Não havia dinheiro para tal luxo. E a minha mãe não deixava, dizia que a televisão roubava-nos o dinheiro para o caldo de romãs que juntava no bife que o peru que tínhamos no quintal iria dar. 
 Então eu chegava da escola e todos os dias a encontrava na cozinha, de olhos cerrados quando não estavam fechados, a cantar uma música soul ou jazz. Uma diferente, todos os dias. Ou dançava um charleston enquanto cozinhava o lombo de porco com alecrim e passas. Fazia um drama ou outro para matar saudades dos seus tempos juvenis de teatro, quando lhe encontrava a chorar enquanto cortava as cebolas na mesa de madeira. E ainda quando não estou, o meu pai chega a casa sabendo que metade da roupa dela está já no chão. 
 A minha mãe matou os tempos mortos e silenciosos a ensinar-me a cantar as músicas do Ruy Mingas porque às vezes Paulo de Carvalho já fartava. Contou-me das histórias lá da banda, do rei do gado e da menina que tinha nascido no paraíso e tinha criados para lhe dar banho. Do "mundo ser nosso" e de nada ser de ninguém. Levou-me até África sem sairmos da cozinha e ensinou-me o cheiro de todos os legumes que os que vêem televisão não cheiram. Mostrou-me que ler com o cheiro do bacalhau com natas caseiro a sair do forno é melhor do que ao ouvir música e educou-me a pegar correctamente no copo de vinho, porque bebia sempre um enquanto cozinhava. 
 Sorria ao sonhar, enquanto cozinhava.

13 dezembro 2011

Voila



A inspiração torna-se absoluta, 
a culpa fica matuta, 
e começa-se a escrever.

19 setembro 2011

Hipster

Quando as flores tocarem música e os insectos forem só de brincadeira, as meninas puxarem aviões em prova do amor aos namorados que guardam golfinhos em aquários gigantes lá em casa, as multimilionárias casarem com um homem que já foi mulher e sem fazerem a mínima ideia disso, os carros serem extintos e invejosos dos helicópteros, os meninos de ginásio fazerem braço de ferro com robôs e o presidente ser o mais pobre do país, os teus melhores amigos forem hologramas e o show de luzes da cidade tiver uma cascata que é na verdade um relógio, a telepatia for desenvolvida e Marte ter derrotado Algarve como capital portuguesa das férias, as pedras da calçada forem pintadas com sorrisos, o teu problema for o facto de não teres problemas, as casas tiverem amortecedores e o terraço do teu apartamento forem as nuvens do céu, já não existirem computadores porque os smart phones tomaram conta do assunto, as mães escolherem os sexos dos bebés, tomar banho for um rotina horária, os pelos no corpo do homem já forem extintos e teres um chip atrás da orelha porque cartão único é tão pouco prático, os palcos de teatro tiverem elevador, a tua chávena de café for metade quente e metade gelada, usares lentes de contacto para o sol e implantes subcutâneos nas costas, as fotos com roupa tornarem-se um escândalo mundial e o pavor ao canibalismo for posto em ruínas na assembleia, uma raça perfeita for-se desenvolvendo involuntariamente,  os albinos meterem inveja aos arianos e a tua filha dormir com uma chita sem fome no quarto,   as estradas das pontes tiverem tapetes rolantes para os carros pouparem energia, usarem tsunamis fracos para lavarem as ruas da cidade mais rápido, o chão da tua varanda for feito de vidro transparente, a água for um luxo e os prédios tiverem rodinhas para poderem deslocar-se em caso de emergência, o teu robô de estimação disser que te ama, o sexo só meter graça se não houver penetração, os candeeiros do teu quarto estiverem implantados dentro do teu colchão, descobrirem que as árvores afinal dançam, a polícia for átomos infiltrados que estão na tua casa, o teu roupeiro funcionar por telecomandos e inventarem martinis e vodkas sem álcool, conseguirmos trazer os dinossauros de volta, as discotecas mais in's do momento  forem dentro de carrinhas brancas transformadas lá dentro e os saltos altos fizerem massagens aos calcanhares enquanto as senhoras os dominam, congelarem corpos para trazer-los de volta daqui a uns 143 anos, o presidente dos EUA for um jovem clonado e os padres fizerem nudismo em praias exclusivas para freiras nudistas, aí sim, aí a gente fala.

30 junho 2011

Perdoai-lhe


(...) E dizes-me, Senhora, que deus existe?
Vejo-te a chorar, na nossa paragem de autocarro, com saudades da banda angolana, que quis alguém destruí-la. Convidas-me a fazer-te companhia em tua rica casa, pois os filhos formam-se lá fora e a viuvez sempre foi moda. És rija, de 80 impérios, 3 continentes e dizes-me que vais à missa enquanto eu vou à arte. 80 impérios e o teu corpo ainda é rijo, trabalhado para sofrer os caroços da vida que custam a engolir. Falta-te a armadura de soldado e hoje estás sozinha. Tudo o que lutaste para ter, hoje não o podes partilhar. Ganhaste guerras em nome de quem? Venceste tudo em nome de quem? Hoje estás sozinha.
E dizes-me que Aquele Merdas existe.

22 junho 2011

Fresco


Respira forte, gosta de brincar com o ar. Dá pulos imensos, de prédios a prédios. Sopra para rochas, diz que gosta de ouvir o ar a raspar na superfície daquela solidez, ao tentar penetra-la. O vento nas costas é poder, de frente são cabelos esvoaçantes, na cara são lágrimas caídas e na boca é sentir-lhe o paladar. Corpo todo esfarrapado, das quedas enormes que provoca e expira o fumo da erva pelo nariz.
Sorri com um suspiro, que o ar não estagna dentro de si.

30 maio 2011

Tarzans do Lote 18


Atravessa as lianas e as armadilhas da Chicco que lá andam, pela madeira que cobre o nosso chão. Há sempre terra a mais que trazemos da rua e que se solta ao pularmos na teia-de-aranha-trampolim-sofá enquanto a água do rio corre porque não fechámos a torneira. A nossa roupa é de puro algodão e os chapéus de palha são mais autênticos. Nem perguntes porque é que os cereais estão todos espalhados pelo chão, houve quem não soubesse pular de galho a galho com coordenação. E nunca ninguém bateu à porta dos quartos porque a madeira das árvores sabe que estamos lá e não precisam de avisos. E gritávamos estridentemente entre sorrisos rasgados por causa do eco, que nos devolvia a voz e espantava os bichos-males.
Não dizia ela que a nossa casa era uma selva?

26 maio 2011

Le città nere


São cidades escuras, pelas quais se anda. Os grandes prédios adormecem, sem dar chance de serem vistas as estrelas e a Lua lá em cima, como um gigante a esconder formigas. Os carros desligaram os faróis e circulam pelas estradas de olhos fechados. E nas portas dos bares e das lojas estão "Volto já"'s estampados há horas.
Já não dá para ver pelicanos da ponte, naquele rio que espelhava os prédios e os barcos. As fotografias já não têm flash e as pessoas têm agora a mesma côr. Já não dá para desfilar, sem público não há show off.
Já não dá para saber onde é o fim do mundo, porque o escuro é infinito.

17 maio 2011

Não te esqueças de ser perfeito.


Ata os sapatos e faz cara de guerreiro, que o smoking sorri quando está contigo. À entrada distribui panfletos de charme com a tua assinatura e vai para o centro do palco dançar com alguém. Não vás ao bar, a bargirl e o barman vão lutar entre si para ver quem vem oferecer-te a bebida à pista. As miúdas bonitas e requintadas que te galam? Ignora, mostra-lhes que consegues bem melhor.
Não te esqueças de sorrir com os olhos. Não te esqueças de ser perfeito.
Volta para casa com olhares arrebatados, suspiros discretos e comentários ardentes. Se sentiste alguma coisa no rabo, sim, apalparam-te. Mas não olhes para trás. No máximo, desloca-te um pouco para o lado. Cumprimenta o DJ porque ele fez questão que estivesses presente... não sabes bem porquê, mas sabes que toda a gente te acha o Rei da Festa.
Quando em casa, és apenas o menino que ata os sapatos.

16 maio 2011

SLIAN


Um homem de garra não é só um homem de garra.
Tem de ter garras, saber desfiar caras com arranhões, trepar árvores para ver o mundo de cima, saber aterrar de um salto com grande impulso, abrir côcos para dar de beber ao mundo e saber apontar precisamente... um detalhe.

25 abril 2011

É Física



Não sabes que quando uma porta se fecha do nada é preciso corrente de ar? Quando se fecha uma, está outra aberta.

26 dezembro 2010

As luzes não se apagam


É aí que eu me perco, na intimidade dos lençóis
Quadrados, redondos, de seda, todos voam
com o ar fresco-quente dos sonhos.
É tão bom viagar sem ter de sair do sítio.
De manhã sinto falta dela,
cheirosa almofada que me canta as ondas do mar.
E somos aviões de papel, dentro de um emaranhado e
meninos à solta numa gruta de lençóis.
Lanternas acesas, pupilas dilatadas, excitação alargada.
Dormir? Só quando as luzes se apagarem...