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01 junho 2011

Obras narradas


O narrador de histórias é um homem ainda jovem, acabado de sair do sal do mar. É alto e veste roupas que falam de si de um jeito sublime. Conheci-o no seu lugar preferido: nas traseiras de um bar virado para a praia, sentado numa poltrona velha que tapara com uma manta de Inverno. Eu não sei se ele vive ali, mas aquilo é a sua vida.
Conta histórias aos que lá passam pelas traseiras: os que andam à procura do wc, os que vieram atender uma chamada telefónica e os que vieram vomitar. E todos se apaixonam pelo jovem contador de histórias que carrega livros em ambas as mãos. Alguns nem voltam a entrar no bar, suspeitaria que teriam fugido com ele se ele não estivesse lá todos os dias, assegurando a sua presença.
Diz que não gosta da praia, mas dali consegue ver o mar e fá-lo todos os dias da sua vida. Porque diz que observar o mar é o seu sonho e, mesmo que conseguidos, dos sonhos não se desistem.

13 abril 2011

Sabor a sal


Vinhas de vespa côr-de-menta, entre árvores em vénias num Verão infinito de azul continuado pelo céu. Eram óculos de cristal, o que usavas para contrastar com a toalha azul-petróleo? Foram buracos que fizeste para descobrires a areia fresca aguada e entrares dentro da Terra.
Acreditaste, até as mãos fazerem sangue de tanto cavares, que ias ao Centro do Mundo. Ias descobrir a eterna juventude e deixar o egoísmo tomar-te para que essa água benta te permitisse ver a evolução do planeta em paz, numa solidão acompanhada pelo desejo. Esse desejo sempre foi um prazer onde o orgasmo é inatingível, eu sei.
Deixaste o buraco aberto para que lá bem do fundo, no centro do mundo, pudesses, ao olhar-me de baixo, ver se eu era do tamanho dos deuses. Ainda não recebi resposta, mas mandei Hermes tomar conta do teu recado.