Afinal, este é o mundo real. Lá fora o mundo sofre economicamente, as pessoas continuam a morrer, há trabalho a ser feito a cada oito horas. Nós, nós vivemos o Sol. Fazemos saladas com peixe grelhado e comemos com as mãos. Vamos aprender a surfar, um dia. Vamos ter corpos esculturais que nunca tivemos. Perdemos (perdemos?) as roupas e vivemos só de t-shirt e calções de banho; quando não vamos nus para o mar.
30 janeiro 2013
Temos Sol
15 janeiro 2013
No nosso tempo
A nossa vida era feita dessa energia elitista e calma de quem espera de filosofia dançante pela morte. A nossa vida passava-se dentro dessa música jazz feita nos palcos de Montreal, com Tom Jobim bem lá no fundo a fazer magia. A orquestra era o público, era sempre assim. E nós dançávamos à espera da morte, porque isso preenchia-nos a vida e dançávamos aos pares e individualmente, entre paredes sem luz que nos separavam do mundo actual. A nossa esfera universal era aquilo.
25 dezembro 2012
Os outros
Os outros são viajantes. Viajam na imaginação proporcionada pelo livro que lêem no comboio que viaja cidades de um mundo que viaja todos os anos o mesmo caminho. São ligeiros, os mundos que viajam entre nós, que se cruzam em todas as ruas construídas por corpos que só serviram de transporte para a vida. Nota que eu estou aqui, contigo, porque tu estás a ler este texto que é meu. Tu tens na cabeça palavras e panoramas que eu estou a fazer-te imaginar. E, mesmo assim, pertencemos a mundos diferentes. Histórias paralelas com sonhos incomparáveis e tesouros ultra-dimensionais dentro de nós. E, no entanto, se fores de Lisboa, já passaste por mim, já me pisaste o pé sem querer, já te pedi com licença quando estavas parado/a numa escada rolante de qualquer centro comercial, talvez.
Estamos juntos pelo espaço. É isso. O espaço, esta massa corporal, física e tocável é a única coisa que nos une. Porque nem os sonhos. Podemos ter os mesmos, mas só juntaremos forças para a concretização dos mesmos através dessa matéria tangível. Porque somos de mundos diferentes, uns dos outros. Cada um de nós viu voltas diferentes que a vida dá.
No fim, quem for bom em álgebra, estará vivo de tanto saber que somos já sete biliões de sonhos diferentes. De projectos que podem tornar-se realidade, de universos que podem tornar-se verdade. Eu sempre te disse que éramos super-homens, hã?
13 dezembro 2012
Baby
Todos os lugares foram grutas onde fizemos amor. Todas as pedras seguraram os pássaros que nos embalavam a dança da corte que aprendemos a fazer um com o outro. Todos os Reis e Condeças testemunharam o nosso caminho ao sagrado. E todos os deuses receberam a nossa apoteose sem qualquer problema com a nudez. A nudez do teu sexo e das tuas bochechas rosadas, contraste com a pele branca que refletia o sol no topo da serra. Ali, tu brilhavas.
Todos os dias inventávamos canções, todas as histórias eram nossas, de mãos dadas, e todos os cães sorriam com o rabo ao ver-nos assim. Porque nós falávamos com eles. Todas as roupas serviram de manta e todos os beijos foram o primeiro. E todas as rochas em que nos deitámos estão marcadas, pelo cheiro, pelo desgaste, por mais que tenha sido pouco, que lá fizemos, deitados, a fazer amor.
É por isso que foi sagrado.
10 dezembro 2012
Slow update
Eu vou ler este livro devagar.
Vou viajar deitado neste sofá pelas vidas deste livro tão cheio de vida enquanto bebo o vinho tinto, de sabor quente, que me finaliza o jantar. Porque os livros são assim, eternos por não sabermos quantas vidas abrigam. Por não sabermos quantas vidas tem essa vida.
Está frio lá fora, é véspera de Dezembro e uns livros esperam em fila, já saturados, que eu os leia. É essa a minha alegria: estar cheio de livros para ler. E este eu vou lê-lo devagar, abrigado pela luz fraca e amarela do candeeiro de pé. Mas não vou lê-lo devagar só hoje, irei fazê-lo amanhã e depois e depois, sempre com a manta velha e pesada que me cobre o corpo todas as noites.
E a lareira assiste-me, ardendo por um trago de vinho com tons de madeira que beberico ao ler este livro devagar no sofá. Hoje vamos viver devagar.
23 novembro 2012
Let's have a toast
Então fazemos assim.
Juntamos tudo e deitamos fora, os gritos de adrenalina, os abraços inspirados em martini, as canções chatas da infância e as noites que madrugámos, todos juntos, à porta de casa uns dos outros. Juntamos tudo e queimamos: dançamos à fogueira feita dentro de casa, no quarto dos pais. Para aproveitar e deitarmos fora as palmadas também.
Reciclamos os sonhos da casa dos 10, de fazermos uma viagem de bicicleta pela Europa, de deixarmos o emprego no restaurante para viver algumas vidas eternas em acampamentos hippie. Sejamos passageiros em comboios e em destinos. Que não seja só um, para conhecermos outros caminhos que dão à nossa rua ou a outras que nos guardam vizinhos. Que sejamos muitos.
Juntemos muitos e realizemos.
15 novembro 2012
Somos nós.
Olha para a coisa redonda que é a Bola em que pisas. Olha para os que te vêem chegar a esta sala e te vêem sentar nessa cadeira e abrires o livro que começaste a ler esta semana. Estuda-os, fá-los confessar que os sonhos deles poderiam acabar contigo. Que os vossos sonhos todos poderiam criar um mundo. Faz-te ver que eles são super-homens e que tu, afinal, és rico. Tens o mundo a falar contigo sobre o que se pode fazer no Universo.
Dá-lhes uma moeda para eles rejeitarem e finge que não tens sonhos dentro de ti. Perde o tempo de uma vida a trabalhar no que gostas e mostra-lhes que tens tudo para dar e para mudar. Prova aos ricos que és mágico e faz com que eles te levem a sério. Aliás, leva-te a sério, está bem? Vais descobrir que os teus amigos das bebedeiras são filósofos escondidos e encavernados por uma educação limitadora. Sentirás que o mundo é teu porque tudo é nosso e o deixa de ser ao mesmo tempo que o é. Vais dedicar-te ao futuro porque o futuro és tu e todos.
A dedicação é sagrada por ser amor, leva-te aos deuses que o mundo louva-te.
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