07 março 2013

Reino Ínfame

Portugal, tudo isto é retrato.
Hoje percebe-se o menosprezo ao verde, que a esperança do povo nunca foi muita. Ganha sempre o vermelho, que lembra o sangue que muitos já não deitam. Que já ninguém vê mas, porquê ninguém se pergunta, todos o lembram. Para progresso é preciso esforço e para isso temos a do Brasil, façam eles. Ou os outros, tanto faz. A morte ainda lhes organiza e agenda a vida. No meio, o dinheiro amarelo que os motiva para tudo. O centro de tudo, a única sede de ter.
E o passado, os escudos que protegem os castelos que, com tão pouco verde, serão ruínas.

27 fevereiro 2013

Hibernar

Vamos virar-nos do avesso e publicar as nossas entranhas nas notícias e nos jornais. Usaremos as palas dos cavalos, tentativa de pragmatismo incessável. Vamos dar o corpo ao manifesto. Até não poder mais. Depois, depois é outra história. Vamos deitar-nos no manto de um pelo qualquer macio, perdido no escuro do quarto onde sonhávamos. Hoje não vamos sonhar. Vamos apagar das memórias tudo o que aconteceu e do que ainda irá acontecer. Vamos dormir e esperar que o mundo se esqueça de nós para que, amanhã, seja um dia completamente novo. Vamos dar toda a nossa energia a alguém e tornarmo-nos nada, neutros, zero. Sem datas, sem futuro.
E vai saber tão bem.

19 fevereiro 2013

Bodyguard


Tu és um forte. Nem sopros, nem ondas, nem mar. Estando ao meu lado a ressonar na cama, tu estás atrás, à frente, do outro lado de mim. Ao meu redor. Sem saberes, porque estás a dormir, tu crias um mundo só nosso porque, na verdade, tu roubas-me do mundo em que todos os tubarões me rondam. 
Tu veneras-me. Eu sou o teu troféu, a força do mar, a estrela dos palcos, a cobiça das discotecas. O eixo do teu quotidiano, o ser a quem te submetes, o núcleo da tesão na tua cama. Eu tenho-te nas minhas mãos e tu és meu. Tanto eu como tu sabemos isso. No entanto, és tu que me proteges de mim. Do meu abismo.
Dormes de costas para mim e, mesmo assim, sei que o Mundo não vai acabar. Nem que eu nem tu iremos morrer agora, nem aqui. Porque és a vigília apurada em todos os ângulos e alerta a todos os sons, sensível às premeditações.
Somos uma matilha. Tu não és só o Baco que me põe as uvas na boca e me possui na cama, no chão, na mesa. Nós somos irmãos. Somos até ao fim e contigo eu sei que somos o Mundo e que o Universo não treme. E sempre irei ver o sorriso eterno de miúdo na tua cara quando chegar a casa com a roupa rasgada das mordidas dos tubarões.



10 fevereiro 2013

Flaws of mine





I've never had strong and manly hands. My jaw line was never visible enough. Don't know how to play soccer. My walk is discoordinated and my body is far away from being athletic at all. I never felt i could protect you as a boyfriend and i envy the charmy and cocky boys who are good at sports, when they pass at me in the streets. My eyes will never be green and i dream about fantasy all the time because i don't feel secure in the reality you all live in. I was never the most popular guy at school, at the job, anywhere. But hey, i have dreams.

05 fevereiro 2013

Let's play with Fire

Brindêmos aos canalhas. Vamos reconhecer que o mundo é dos espertos e brindemos também às sereias que vemos dentro do mar, quando nadamos de olhos fechados. Limparemos o quarto para dançarmos ao som da rádio, e não o contrário. Vamos fazer sexo na mesa da cozinha onde a nossa família come. Somos irmãos. Vamos faltar ao trabalho porque fomos fazer arte ali à esquina e vamos andar descalços na rua para mostrar às pessoas que, acordem!, somos do Mundo. Faremo-nos chorar, roubaremos sorrisos e escreveremos cartas a desconhecidos e deixemo-las num parque para alguém ler. Encher a boca de fogo e iluminar o mundo com a nossa voz. Preenchê-lo com a nossa coragem. Não teremos medo do mundo e vamos andar à porrada com o preconceito e comodismo. Vão chamar-nos loucos a vida inteira e, no fim, irão abrir o caixão para uma última vista ao nosso corpo e não estaremos lá porque fugimos à morte para lhe mostrar que mesmo mortos, somos eternos.

30 janeiro 2013

Temos Sol

Não sabemos há quantos dias brincamos com as ondas. Não sabemos há quantos dias o mundo real acabou para nós. Os calendários hoje são arqueologia que apenas os arqueólogos conhecem. Nós, nós somos adolescentes. Os vinte anos nunca irão chegar.
Afinal, este é o mundo real. Lá fora o mundo sofre economicamente, as pessoas continuam a morrer, há trabalho a ser feito a cada oito horas. Nós, nós vivemos o Sol. Fazemos saladas com peixe grelhado e comemos com as mãos. Vamos aprender a surfar, um dia. Vamos ter corpos esculturais que nunca tivemos. Perdemos (perdemos?) as roupas e vivemos só de t-shirt e calções de banho; quando não vamos nus para o mar.
Maria Gadu toca para nós, lá do outro lado do oceano onde a cidade maravilhosa nos inspira. E alguns dos nossos envelhecem, dourados pelo sol, uma evolução que ninguém percebe. As sardas, as sardas. Conhecidos por loucos, por dormirmos abrigados pelo Sol todos os inícios de tarde.

15 janeiro 2013

No nosso tempo

A nossa vida era feita dessa energia elitista e calma de quem espera de filosofia dançante pela morte. A nossa vida passava-se dentro dessa música jazz feita nos palcos de Montreal, com Tom Jobim bem lá no fundo a fazer magia. A orquestra era o público, era sempre assim. E nós dançávamos à espera da morte, porque isso preenchia-nos a vida e dançávamos aos pares e individualmente, entre paredes sem luz que nos separavam do mundo actual. A nossa esfera universal era aquilo.