13 setembro 2011

Dorme bem,


Já viste a ironia, Mãe?
A pessoa que mais amo levar-me a ter o pior dia da minha vida.
Os sábados, dia de limpeza, já começavam a soar-me estranhos: andavas a comprar ácidos que nunca compraras antes. E as visitas à farmácia já eram semanais e eu não sabia o que se passava. Tinha falado com o psiquiatra dias antes e, segundo ele, nada tinha piorado.
Ajudava-te a sorrir, com as minhas piadas de 7ª classe que sempre apreciaste na primeira fila. Ainda te ajudava a levantar, a andar e a ires dormir, ignorando a pena que sentia ao lembrar-me de como eras linda e apetecível e perfeita quando nova. Foste um ídolo. Ainda dormia contigo e ainda fazia comer para ti para me lembrar do amor que recebia quando a fazias para mim.
Ontem deste-me um tiro grande ao deixares-me sem alternativa. O dia durou várias eternidades de tão eterno. Não pude queixar-me de falta de tempo: todas as questões eu questionei, tudo o que queria conhecer de mim conheci, todos os defeitos apontei e condenei em mim, todas as emoções e sentimentos eu senti. E restou-me tempo para flutuar naquele chão do teu quarto.
Estavas perfeita ao meu jeito, à minha mãe, deitada na cama com os cabelos crespos e brancos despenteados e vias "os teus homens" acção na TV era tudo para ti. Foi hoje. Só pode, porque lembro-me de tudo. Do ar quente, o cheiro a ti, o edredão branco, a almofada sobreposta a outra e tu a olhares para mim como quem pedia para te deixar para me poderes deixar. Passei a mão pela tua cabeça, penteando-te o cabelo velho que para mim ainda era mais perfeito que alguma vez imaginei neste blog. Não falaste porque os olhos diziam e pediam demasiado.
Eu fiz, mãe. Não ia deixar que a morte escolhesse quando seria a hora. Sempre foste senhora de ti e ias decidir quando e como ias ter com o suspenso. Não ia deixar que a dignidade te fugisse na hora das cortinas fechadas e da salva de palmas ao drama que foi a tua vida. Fui buscar os comprimidos, dei-te incontáveis e apreciei aquela demência tua na dificuldade de beberes um copo de água e tomares um comprimido. Apreciei os lábios ansiosos, os olhos procuradores, as mãos de unhas perfeitas trémulas, a cor mulata que de pequenino tanto invejava. Sorriste. Bebeste o ácido e sorriste pela última vez. Mas eu não vi bem porque chorava-me a alma e o corpo juntos em sintonia nunca sofrida.
Deitei-me a teu lado e aconcheguei-me a ti em forma de concha. Como fizemos toda a vida, lembras-te? E deixei-te ver o fim do episódio. E senti o teu fim quando paraste de respirar. Foi agora, lembro-me de tudo. Estavas tão doce, acariciei-te a tarde inteira e chorei colado a ti, minha princesa das vidas mal compreendidas. Apertei-te mais a mim, aconcheguei-te mais ao meu corpo e descansei a cabeça no teu pescoço deitado. Foram muitas eras que fiquei a ver TV contigo naquela tarde de quarto escuro e quente. Pedi ao teu deus para fundir-nos e queria que ficasses ali assim, quieta, perfeita, ainda quente, comigo. Só nós os dois. Para sempre. Juntos.
Chorei, perguntei, chorei, prometi matar o teu deus e o meu diabo também.
Depois ficaste fria. De costas para mim, fechei-te os olhos sem poder ver-te a cara e deitei-me no chão do quarto. Não sei, não me perguntes porquê. E foram mais 34 anos de luz que levitei sobre o tapete sem pestanejar, alma anestesiada pela tortura.
Corroeu-me a alma toda. Já não me tinha por não te ter. Levitava no vazio porque o mundo tinha acabado porque o único Deus que existia aqui eras tu. O que é que se faz quando se descobre que Deus não existe e que não há, na verdade, uma razão para viveres senão fazer o bem para poder ir para perto dele? E tu foste. Não disseste "Xau", mãe. Só sorriste. E eu nem vi.
Porque é que lutaste até aos últimos dias para eu poder ser feliz se, no fundo, sabias que eu não seria feliz sem ti?
Eu amo-te, mais que tudo e como nunca.

16 comentários:

  1. não tenho palavras. o texto está muitíssimo bom, ainda que o assunto não seja o mais feliz.
    p.s: pareces invulgar. sabias? os grandes textos nascem sempre de pessoas que, de forma alguma, se recusam a pertencer à classe «igual».
    beijinho e continua

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  2. Magnífico texto... grande grande amor este que escolheu o seu último suspiro...

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  3. Tenho apenas algo a dizer: "Perfeito"!

    Abraço

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  4. não gosto do tema, mas o texto está mt bom.

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  5. Senti um aperto no coração ao ler o teu texto...
    Reconheci a dôr...
    Um equilíbrio impressionante entre a tristeza do acontecimento, e a beleza das tuas palavras...
    Beijinhos

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  6. Eu não vejo mal absolutamente nenhum no sexo sem compromisso. O contrário - compromisso sem sexo - é que é capaz de ser mais chato xD

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  7. Arrepiei-me ao ler este texto. Está muito bom. Sente-se um turbilhão de emoções em cada frase.

    Parabéns pelo blogue :)

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  8. Este texto está muito profundo, e perfeito. Mexeu muito comigo.
    E acerca do teu comentário: amei, ahah, boa frase :b
    E vou-te seguir, adorei o blog.

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  9. A sério? Por causa de um nome? lol
    Então espero que continues "prendido" há história por muito mais tempo! ;)

    p.s. Quanto a ao blog, o que li, adorei! Vou seguir!

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  10. Agora seria a minha vez de dizer um palavrão...

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  11. Vim retribuir a visita. O texto é fortissimo. Não sei que diga. Um abraço agora no teu espaço.

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  12. Ultimamente tenho andado com a cabeça cansada para ler textos grandes... começo a ler e desisto . Mas este prendeu-me e surpreendeu-me ! Não um texto grande, mas sim um grande texto ! Um assunto muito triste mas gostei muito.
    quanto ao teu comentário: é preciso que seja um bom pai sim... mas ao qual é que te estás a referir ?

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  13. Mas que texto triste... muito bem escrito mas incrivelmente triste. Um amor assim não morre... mãe só há uma.

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