10 Junho 2013

Três pra trás

Vamos para trás-os-montes, amor. Vamos para o mato tentar descobrir onde o mundo começa. Vem procurar água fresca, recém-nascida, para sentires de novo que somos vivos. Mergulha! Isso, mergulha, e sê feliz comigo que eu não quero mais lembrar-me do maior erro que todos nós somos. Liga as luzes do carro quando se fizer noite, assim temos vigia. Vamos viajar, amor. Lembremos aos nossos olhos que o mundo não é só o que vemos. Fiquemos a secar deitados no manto de relva fresca, grande, selvagem que nunca foi cortada. Com bichos, os bichos e tudo. Fumemos erva pura e comamos saladas com massa. Já sei!! Vamos à pesca, amor! Vamos pescar baleias e dançar com elas nos seus jardins de algas que nós não conhecemos. Vamos ao mar.


06 Junho 2013

Vrum

Vamos para a noite. Cavaleiro de mota, prostrado em frente a minha casa. O motor do cavalo branco ronca nos meus ouvidos e desperta os vizinhos que vêm da janela. E seguimo-nos pelas mãos largas, desenhadas, posicionadas no ponto do desejo.
Andemos, que hoje somos cavaleiros. Irêmos por esse casaco grosso que nos enchumaça os ombros, pelo já quase esquecido sapato de vela e por toda essa coisa bem composta. Enfrentemos o vento, simulando-se ar puro. Sejamos da estrada desconhecida e forcemos o motor até avistarmos mar. E se não quisermos voltar, que seja então profecia.

17 Maio 2013

É como morrer na praia

Pula. Junta-te a mim nesse precipício onde o caminho é só um. Dá-me as mãos para eu sentir as tuas vertigens durante a queda. E ouve apenas com o coração para não ouvirmos os nossos crânios estalarem ao atingirem o chão. Crac. Engole esse meu veneno já tão entranhado onde me perdi. Nada comigo no nada que somos. E deixa-nos morrer juntos deitados na cama para que se cumpra a tragédia que isto é.

09 Maio 2013

Sure, not sure, yes sir

Aprendo a jogar esse jogo de adivinhas tão caracterizante. Do quê, não sei, o termo caracterizante é algo que me parece credível para um texto, mas tranforma esse fim de infância onde antes de acordar com os olhos para o céu, os olhos descem para terra. E a vida é um poema, não sabes qual das 1000 maneiras irás interpretá-la e não saberás responder o que te pedem no exame nacional de português. Não saberás responder às perguntas que fazes a ti nem às que fazes aos outros. Não saberás interpretar este texto.
Resume-se a saber o caminho de casa. Só isso será preciso para tudo ficar bem, que eu saiba o caminho de tua casa. Por ora, brincas no quintal, livre dos adultos que tantas chapadas te deram. Das crianças que tantas vezes e tão generosamente te deram doces que, afinal, já não queriam porque tinham caído no chão. Quero aprender esse jogo que jogas nos campos alegres que me deste a conhecer, quero voltar contigo para casa e quero continuar a ser criança contigo. Olha que a vida não dura diamantes.
Está tudo bem, eu juro. Eu fico aqui sentado no alpendre vendo-te brincar. Mais tarde, voltarei para dentro para fazer o jantar, esperando que escolhas o teu caminho para casa.


27 Abril 2013

Milícia

Manda vir essa vingança. Esse nojo que tens de mim quando tens paciência para me olhares uma vez mais. Grita-me essa raiva tão criada e aniquilada pelo que o meu espelho reflecte. Constrói esse exército e poe-nos em marcha, todos os soldados que tiveres para que me derrubem os pés dançados. Eu sou criança: ainda brinco no chão e ainda tenho vários sonhos acordado. Tu, tu és Deus, Senhor de Ti, Força de espírito, Navegador de todos os teus mares que bem conheces. 
É tragédia - sem audiência - esse tempo tão distinto, marcado por gerações que pensávamos compreender. No tempo ninguém manda. As paredes do quarto piscam, pálidas, com a televisão que passa os filmes rebobinados para trás. Tenta-se. Espero.

Domus


É essa porçao de terra que se pinta nas paredes do nosso quarto. Os vales com que sonhamos ao olhar para o teto. As esfinges de algo que não conhecemos. E  a certeza, a certeza de qualquer coisa que não sabemos. Oh!, má fortuna que o tempo não nos tenha o mesmo passo. Quem nos dera saber o quê naquela altura. 
Faltam as conchas e o abraço, sentados à beira-rio, olhando o que é nosso. É essa certeza que se sabe hoje, de que juntos, tudo é nosso. Que o que pisamos, o que respiramos e ouvimos das gaivotas, foi designado a ser nosso. Precisamente por sentirmos que não vai anoitecer. E mesmo que anoiteça, festejaremos a noite inteira em lençóis brancos de paredes desconhecidas.
É a verdade. O tempo, que pára sem darmos por isso. As memórias que se tornam escrituras. Esse respirar aconchegante de não se saber o que vem depois, sabendo que o depois está lá, à nossa espera. E que é nosso.

19 Abril 2013

Amor Vincit Omnia


Estamos de luto. Vestimos as vestes pretas e fitamos as gotas em quantidades infinitas que atingem a erva molhada. O tempo é cinzento, e seria cinzento mesmo que hoje no mundo não houvesse cor. Sorrimos um nada imaginário onde as palavras, ao longo do texto, ao longo do último discurso, deixam perder o sentido e perdem-se no rumo e na vinda. Procuramos por alguém para possuir, a fim de encontrarmos vida.
É impossível fitar o morto. É impossível olhar para dentro. Perdemos a certeza de termos estômago, ganhamo-la quando a sentimos ser comida pela bílis. Quando conseguimos sentir. Hoje começa a festa da velha guarda. Onde os jardins serão regados a bons olhos, literalmente. Onde nos afogaremos dentro das nossas camas, tão vazias e tão imensas. O dilúvio irá destruir os sonhos que, nos últimos dias, nos temos lembrado de sonhar depois de acordar.
Hoje o ciclo comprova a sua veracidade. Perdemos de vista o futuro, não existem mais maquetes para projetar em cima das secretárias nem mapas nas paredes, furados por pioneses, por trilhar. Levantem as bandeiras. O tempo do dia de hoje não será regido pelas horas nem pelos sóis, nem pelas marés guiadas pela Lua. Hoje o negro instala-se.